Pellets e briquetes, produzidos a partir de uma fonte de energia renovável (biomassa), podem aquecer água e a casa e compensam face aos combustíveis fósseis

Texto Isabel Vasconcelos Fotografia José Pedro Tomaz

www.deco.proteste.pt/aquecimento

Desde 2011 que Vítor Poças preside a AIMMP (www.aimmp. pt), fundada em 1957. Esta associação de utilidade pública representa cerca de 8000 empresas
em diferentes áreas da fileira da madeira. Conversámos com Vítor Poças sobre a importância da biomassa e sobre como os consumidores podem tirar partido desta energia nas suas habitações.

Qual a importância da biomassa e da bioenergia, em Portugal?

VÍTOR POÇAS Num país com cerca de um terço da área classificada como floresta, a biomassa, enquanto matéria orgânica de origem vegetal usada para produzir energia (a bioenergia), é um tema de muita importância. Permite valorizar os recursos florestais, por constituir mais uma fonte de rendimento para os silvicultores. Garante ainda energia com emissões de dióxido de carbono nulas, além de ser de baixo custo, renovável e menos poluente do que outras formas de energia, como as obtidas de combustíveis fósseis, e permite o reaproveitamento de resíduos. Possibilita a valorização e a proteção dos ecossistemas, da biodiversidade e da proteção dos solos contra a erosão.

Como pode o consumidor usufruir da biomassa?

VP Do ponto de vista comercial e industrial, a biomassa é usada como fonte de energia por parte de diversas empresas, tanto para produzir energia elétrica para autoconsumo, como para aproveitar o calor para os processos produtivos, além da utilização em estufas e diversas indústrias para produção de calor. Também restaurantes, padarias e outras indústrias alimentares recorrem à biomassa para confeção de vários produtos. Do ponto de vista doméstico, esta energia pode ser usada em lareiras, fornos a lenha ou aquecimento de água ou ar.

O acesso à biomassa depende do tipo de produto. No caso da lenha, os consumidores optam por ir diretamente à floresta, quando têm propriedades,
ou recorrer a empresas de exploração florestal, serrações, comerciantes, alguns postos de combustíveis e grandes superfícies. Já no caso dos briquetes e pellets domésticos, o acesso está muito facilitado nas grandes superfícies e nos revendedores locais, embalados em sacos e caixas de cartão que facilitam o seu transporte até às habitações

Existe uma vasta oferta de equipamentos para pellets, como caldeiras tradicionais para aquecimento de águas sanitárias e da habitação, salamandras para instalação em espaços comuns da casa, para aquecer o ar, ou equipamentos com um funcionamento misto. Tanto os pellets como os briquetes são biocombustíveis sólidos, produzidos a partir de desperdícios da indústria e da exploração florestal. Por esta razão, têm características bastantes padronizadas e homogéneas, tal como acontece com combustíveis líquidos comuns. Este facto permite um desempenho superior dos equipamentos, mais limpeza e menos emissões.

Por que razão a biomassa é considerada uma fonte de energia renovável?

VP O dióxido de carbono (CO2) absorvido pelas plantas, necessário ao seu desenvolvimento, é libertado aquando da queima, originando um balanço de emissões neutro. A exploração florestal responsável permite, entre outros aspetos, um melhor desenvolvimento das plantas e consequente maior retenção de CO2, cumprindo a renovação do coberto florestal que substituirá as árvores cortadas em primeira instância.

Não existe uma certa contradição no facto de a biomassa ter de ser queimada para se ter acesso à bioenergia?

VP A biomassa no seu estado natural, a lenha, os pellets e os briquetes não são obtidos a partir de árvores inteiras, mas de matéria-prima sem utilização industrial nobre. Desta forma, proporcionamos uma valorização superior das matérias-primas que, de outra forma, seriam desperdícios. A combustão é uma das formas de aproveitamento energético da biomassa e, em concreto, a lenha, os pellets e os briquetes representam uma solução ótima para a valorização de sobrantes da indústria e da exploração florestal.

“Portugal precisa da floresta e precisa que a mesma seja suficiente para todos os operadores económicos e para as necessidades da indústria”

Como se garante que a biomassa florestal apresenta uma origem controlada e mantém a sustentabilidade dos recursos florestais?

VP A sustentabilidade dos recursos florestais depende de um enquadramento estratégico, regulatório e operacional muito mais profundo, integrado e horizontal a todos os serviços prestados pela floresta, e está muito além do que é a garantia de origem da matéria-prima para produção de lenha, pellets e briquetes. Ainda assim, não se focando a produção de pellets e briquetes na utilização de matérias-primas de proveniência florestal direta, existem já diversas iniciativas e esquemas de certificação que garantem a sustentabilidade dos recursos e matérias-primas, os quais são já muito adotados pela indústria de pellets.

A queima de biomassa, mesmo sendo de fontes sustentáveis, poderá agravar as emissões de gases nocivos e poluir o ambiente?

VP A lenha, os pellets e os briquetes apresentam um ciclo de carbono neutro. No que diz respeito aos óxidos de azoto (NOx) e óxidos de enxofre (SOx), as emissões são muito inferiores às da maioria dos combustíveis fósseis. O desenvolvimento tecnológico ímpar dos últimos 10 anos tornou os equipamentos de queima destes produtos muito sofisticados, com excelentes desempenhos energéticos e de emissões, pelo que esta preocupação está afastada.

O que são e como são produzidos os pellets?

VP Trata-se de aglomerados de partículas de reduzida dimensão (serrim) com o formato de pequenos cilindros, em regra com 6mm de diâmetro e 20mm de comprimento. O serrim é comprimido e forçado a passar por orifícios de baixo diâmetro, aumentando a sua temperatura, de modo a que os elementos aglutinadores naturais das plantas atuem como um “cimento”. O processo de arrefecimento rápido confere o aspeto vitrificado e a resistência mecânica da superfície dos pellets.

Podemos acreditar que não são abatidas árvores para a produção de pellets?

VP Enquanto representantes do setor, garantimos que este risco não existe na produção de pellets. A AIMMP tem feito ouvir a sua voz no sentido de evitar esse atuação e defender a floresta numa perspetiva da intensificação da produção profissional, maior produtividade, rendimento e riqueza para todos. Portugal precisa da floresta e precisa que a mesma seja suficiente para todos os operadores económicos e para as necessidades da indústria, seja ela ligada ao eucalipto, ao pinheiro, ao sobreiro ou a outras espécies.

No passado, encontrámos materiais estranhos e nocivos, como metais, nos pellets. Ainda acontece?

VP No caso de pellets certificados ENplus é muito pouco provável.

Os procedimentos de garantia de qualidade estabelecidos e aprimorados pelas empresas, levam a uma uniformização das características do produto, salvaguardando a elevada qualidade, de forma constante.

O que se consegue garantir com a certificação ENplus num dado produto?

VP Os pellets são certificados por uma entidade independente, com padrões e requisitos técnicos previamente definidos, de modo a garantir uma elevada qualidade e uniformidade durante todo o ano. Há ainda a rastreabilidade do produto em toda a cadeia de distribuição; a garantia de procedimentos de queixa e reclamação, assim como o seu acompanhamento; e o elevado desempenho de equipamentos, manutenção reduzida e limpeza.

Mas esta certificação é voluntária, correto?

VP Sim. Trata-se de um sistema de adesão voluntário, mas sujeito ao cumprimento dos requisitos técnicos e tecnológicos exigíveis nos termos dos regulamentos
do sistema.

Que vantagem tem o consumidor ao optar por pellets certificados?

VP A garantia de que as especificações do produtor são cumpridas, os custos de manutenção são mais reduzidos, a melhor limpeza e garantia de qualidade do produto adquirido, ou seja, há um melhor aproveitamento energético da sua compra. Para escolher, basta procurar o Selo de Certificação ENplus, que deverá apresentar o ID único da empresa. No site ENplus (enplus-pellets.eu/pt), encontra todas as empresas com certificados ativos, bem como mais informações sobre a certificação.

Como avalia o preço do kWh dos pellets face a outras fontes de energia renováveis e não renováveis?

VP O preço tem-se mantido estável nos últimos anos e não sofre os efeitos de flutuações abruptas no custo da matéria- -prima, como acontece com o petróleo. Tal garante maior previsibilidade e segurança no retorno do investimento.

E os equipamentos são soluções acessíveis aos consumidores?

VP Existe uma oferta ampla em preços e utilizações, que garante o acesso a diferentes níveis de capacidade de investimento. Ainda assim, defendemos que a compra de caldeiras e salamandras a pellets deveria ser passível de dedução no IRS, bem como redução do IVA nos seus consumos, como já foi feito com outras energias alternativas.

Os pellets podem ser considerados uma alternativa ao gás engarrafado no aquecimento?

VP Sem qualquer dúvida. Neste momento, comparando os preços e a facilidade de transporte e carregamento automático das caldeiras, os pellets são mais competitivos. Em Portugal, parece-nos que a venda de pellets é algo sazonal. Concorda? VP Esse problema é transversal a todos os tipos de energias que usamos para aquecimento porque temos um clima relativamente ameno na maioria dos meses do ano. O problema reside, para todos, no paradigma do equipamento unifamiliar com elevada intermitência na sua utilização. Consideramos o seu uso viável nesta situação, mas seria útil e necessário promover a adoção de centrais térmicas partilhadas para condomínios ou centros habitacionais, como acontece, por exemplo, em Espanha. Neste país, a energia térmica é vendida e o equipamento é gerido por uma entidade especializada, retirando do consumidor o ónus da manutenção, da limpeza e do aprovisionamento.

A biomassa florestal pode contribuir para o combate à desertificação do interior do País?

VP Com certeza. A bioenergia é a fonte de energia renovável que apresenta maior geração de emprego, direto e indireto, em zonas menos povoadas, onde se concentra a matéria-prima. Aliás, este facto é transversal a toda a indústria da madeira e do mobiliário.

Há regulamentação que promova uma harmonização de todos os vetores: gestão florestal, combate à desertificação, economia circular e deslocalização?

VP O combate à desertificação é garantido pelo investimento na agricultura, silvicultura, indústrias extrativas e de primeira transformação. Foram estas áreas da economia que, mesmo durante a pandemia, continuaram a trabalhar e a gerar riqueza. Os quatro vetores referidos cabem no âmbito da Bioeconomia sustentável e do “Green New Deal”, apontados como um ponto de viragem dos tipos de investimento prioritários ao nível Europeu. Aqueles têm em vista aumentar a independência económica da Europa, com mais produtividade, melhor gestão dos recursos, maior capacidade produtiva e maior respeito pelo ambiente e ecossistemas. Neste momento, não se poderá afirmar que esta articulação existe, mas é uma inevitabilidade para a prossecução dos objetivos delineados.

“Defendemos que a compra de caldeiras e salamandras a pellets deveria ser passível de dedução no IRS”